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Análise da Venda da Braskem: Um Xadrez de Gigantes em Jogo

A longa e complexa saga da venda da Braskem, que se arrasta desde 2018, parece ter encontrado seu movimento mais decisivo. A proposta de aquisição apresentada pelo fundo Petroquímica Verde FIP, liderado pelo experiente empresário Nelson Tanure, não é apenas mais uma oferta, mas uma jogada estratégica que busca resolver um dos maiores impasses do cenário corporativo brasileiro. A negociação envolve um delicado equilíbrio de poder entre a endividada Novonor (antiga Odebrecht), a gigante Petrobras e um influente grupo de bancos credores.

Este artigo se aprofunda nos detalhes dessa complexa transação, analisando a estrutura da oferta, o frágil contexto financeiro da Braskem, o papel decisivo da Petrobras e os monumentais desafios que precisam ser superados. O que está em jogo não é apenas o futuro da maior petroquímica das Américas, mas a solução para uma crise que afeta múltiplos setores da economia nacional.

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A Estrutura Criativa da Proposta

Diferentemente de abordagens anteriores, o plano de Nelson Tanure se destaca pela sua engenhosidade. Em vez de uma compra direta e hostil da participação controladora de 50,1% da Novonor, a proposta visa uma aquisição indireta. O fundo de Tanure compraria a holding NSP Investimentos, que detém as ações da Braskem. Essa manobra permitiria que a Novonor, em vez de sair completamente do negócio, permanecesse como uma sócia minoritária, retendo uma fatia de 3,5% a 5% da companhia. Essa estrutura é vista como uma forma de adoçar o acordo e facilitar a aprovação de todas as partes.

Para que o plano seja minuciosamente avaliado, foi negociado um período de 90 dias de exclusividade. Esse tempo será dedicado a uma auditoria completa dos números da Braskem (due diligence) e, principalmente, às negociações com os bancos credores. O sucesso de toda a operação está condicionado a dois pilares: o respeito ao atual acordo de acionistas com a Petrobras e uma renegociação bem-sucedida da dívida bilionária.

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O Cenário Financeiro: Comprando na Baixa

A ofensiva de Tanure ocorre em um momento de extrema vulnerabilidade para a Braskem, o que pode ser interpretado como uma jogada clássica de comprar um ativo de alta qualidade em um ponto baixo do ciclo de mercado. A empresa enfrenta um cenário financeiro adverso, impactado pela queda nos spreads petroquímicos globais. No primeiro trimestre de 2025, a companhia registrou uma dívida líquida de US$ 6,6 bilhões, um salto de 25% em um ano. As projeções para o restante do ano apontam para um prejuízo de US$ 455 milhões.

Essa performance se reflete diretamente no valor de mercado. As ações, que chegaram a valer R$ 60 no auge em 2021, despencaram para cerca de R$ 12,01 em maio de 2025. É justamente essa desvalorização de 80% que torna a Braskem um alvo atrativo para um investidor com apetite para risco e visão de longo prazo como Tanure.

Petrobras e Credores: Os Guardiões do Acordo

Nenhuma negociação avança sem o aval de duas forças poderosas. A primeira é a Petrobras. Com 47% do capital votante e sendo a principal fornecedora de nafta, a estatal tem poder de veto e é uma peça-chave no tabuleiro. A proposta de Tanure foi inteligente ao não confrontar a Petrobras, estabelecendo como condição a manutenção do pacto de acionistas, o que sinaliza uma busca por estabilidade e parceria.

A segunda força, e talvez o maior desafio, são os bancos credores, como BNDES e Santander. Eles detêm uma dívida de R$ 15 bilhões da Novonor, que tem como garantia as próprias ações da Braskem. Com a queda vertiginosa do valor dessas ações, a garantia hoje cobre menos de um terço da dívida original. Convencer os bancos a aceitarem um novo plano de reestruturação, que pode envolver perdas ou a conversão da dívida em ações, exigirá uma negociação árdua e criativa.


Riscos Adicionais e a Conclusão do Jogo

Além da complexa teia de interesses financeiros, outros riscos pairam sobre a mesa. Questões de governança, como a garantia do direito de “tag along” para os acionistas minoritários, e o massivo passivo ambiental de R$ 27,6 bilhões relacionado ao desastre geológico em Alagoas, continuam sendo pontos de atenção.

Apesar do ceticismo de parte do mercado, a proposta de Tanure é vista como a chance mais concreta de resolver uma tripla crise: a financeira da Novonor, a setorial da petroquímica e a reputacional da própria Braskem. O sucesso desta empreitada dependerá da rara habilidade de alinhar interesses de gigantes, transformando dívida em solução e incerteza em valor. Os próximos meses dirão se o xeque-mate será alcançado.